Na vida limitada de um garoto de rua, que pouco tinha, vinha crescendo uma riqueza de universos criativos. Esta é a história de Mingo! Um lindo menino de rosto marrom, olhos azuis e boné com pena.
Mingo era mais rico que os ricos — não por bens, mas por imaginação (será mesmo imaginação?).
Em seus sonhos desfilavam os Tupi Rerecoara, Mani, capivaras e indígenas canibais, juntamente com uma miríade de outros personagens, todos em tramas detalhadas que contrastavam fortemente com sua realidade. Quando acordava, não tinha dinheiro nem para um pacote de biscoitos.
Mingo sempre soube que era especial. Seu maior desejo era conhecer a mãe, que lhe aparecia todas as noites em sonho — não com rosto ou corpo, mas como uma voz doce que o guiava até um templo sagrado. Lá, sentavam-se as estátuas de Mani, Nhanderuçu e Sumé, figuras que sua mãe lhe apresentava, embora não parecessem pertencer ao seu mundo.
Dormia no lugar onde se sentia mais protegido, num vão entre as cabeças dos mestres do monumento às bandeiras do Ibirapuera; deu um nome a cada uma das estátuas.
Em seu mundo eles o guardavam e vigiavam.
Mingo tinha como único pertence um pequeno carro de madeira, que usava como cofre para guardar o dinheiro que ganhava. Nunca pediu, jamais roubou. Mingo conquistava suas moedas vendendo brinquedos que ele mesmo criava com madeira e restos urbanos.
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As Duas Seitas Tupi
Como sabemos, a Bruzundanga, cuja capital é Bososy, pertence a uma realidade paralela que, por vezes, parece projetar sombras sobre o nosso próprio Brasil. Trata-se de um país onde as estruturas políticas não se organizam em torno de partidos, mas de crenças religiosas. A escolha de líderes ocorre a partir da adesão a cultos, de maneira semelhante à forma como se escolhe um time de futebol.
Nesse contexto, duas grandes religiões dominam a vida pública.
De um lado estão os Tupis Reteokoara, identificados pela cor vermelha. Seu grupo é liderado por uma Yara Rerekoara, escolhida tanto por sua beleza quanto por sua personalidade marcante. Entre suas práticas está o canibalismo ritual, entendido como um meio de absorver a força e as qualidades de outros indivíduos. Curiosamente, seus seguidores, chamados moçacaras, tendem a apresentar aparência frágil e pouco atraente, o que funciona como uma forma de proteção dentro da própria lógica do grupo.
Do outro lado encontram-se os Sumiés, ligados à religião Sumietama e associados à cor azul clara. Sua liderança é exercida por um Minguaba, figura reconhecida como sábio entre os tupis. Seus moçacaras se dedicam a práticas de cura que envolvem a imposição de mãos, o uso de fumaça de ervas queimadas e rituais de benzedura com plantas embebidas em azeite. Defendem a harmonia entre as pessoas, o respeito à vida e o convívio equilibrado com a natureza, posicionando-se de forma clara contra a antropofagia.
Apesar das diferenças profundas, há um elemento comum entre as duas tradições: o maracá. Ao nascer, cada criança recebe um pequeno chocalho que pode ser pintado livremente.
Aos treze anos, ganha seu maracá definitivo, que a acompanhará por toda a vida. Dentro das casas, esses objetos são guardados em estruturas chamadas ietamemunhãs, pequenos móveis de madeira que funcionam como templos domésticos, onde também são depositadas oferendas.
No dia 12 de dezembro ocorre um ritual coletivo de grande importância. Nessa data, todos enterram seus maracás diante de suas casas, junto com alimentos, garrafas de cauim e velas. A tradição afirma que, nesse momento, acontece uma espécie de confronto espiritual entre as duas correntes religiosas. Coincidentemente, é também o dia em que se realizam as eleições.
Na Bruzundanga, portanto, escolher uma religião é, ao mesmo tempo, decidir quem governa o país. E talvez o aspecto mais inquietante seja perceber que, em nossa própria realidade, certos símbolos semelhantes parecem surgir discretamente nas fachadas de algumas casas, como se ecos desse outro mundo encontrassem formas de se manifestar entre nós.







