Existe uma história que não se conta apenas por acontecimentos, datas ou personagens. Ela também pode ser compreendida pelas forças que movimentam os homens, pelas ideias que constroem civilizações, pelos conflitos que transformam sociedades e pelos destinos que se cruzam ao longo do tempo. É dessa perspectiva que nascem as Cartas de Itaecerá, um baralho de 32 cartas criado para contar a história de NEMLÁ, revelar seus personagens e interpretar os caminhos possíveis de seu destino.
A Pedra de Itaecerá, também conhecida como Pedra do Inhapuambuçu, ocupa um lugar central nessa narrativa. Situada diante do Pátio do Colégio, em São Paulo, ela é mais do que uma referência geográfica: é o ponto de encontro entre mundos, consciências e histórias. Segundo a mitologia de NEMLÁ, a pedra foi marcada por um raio do Criador. Essa marca abriu uma fissura por meio da qual os angás passaram a perceber não apenas aquilo que uma civilização é, mas também aquilo que ela poderia se tornar.
As cartas representam os 32 protetores associados à pedra. São personagens que, em NEMLÁ, assumem papéis diferentes daqueles que conhecemos em outras histórias. Ali, os personagens do Monumento às Bandeiras, de Victor Brecheret, não representam simplesmente uma expedição de conquista territorial. Eles são reis, sábios, fundadores, líderes, artistas, exploradores e guardiões de conhecimentos que contribuíram para formar uma civilização. A mesma obra pode, assim, contar histórias diferentes conforme o mundo em que se manifesta.
As Cartas de Itaecerá não são apenas retratos desses personagens. Cada uma representa uma ideia, uma função ou uma força que atua na construção do mundo. Algumas cartas são complementares; outras se contrapõem. Seus encontros e antagonismos ajudam a compreender os conflitos que movem NEMLÁ e permitem que o baralho seja utilizado tanto para narrar acontecimentos quanto para interpretar possibilidades e destinos.
A estrutura do baralho
O conjunto é formado por 32 cartas, divididas em três naipes: vermelho, preto e azul. Os naipes não indicam uma hierarquia de importância, mas diferentes maneiras de atuar na história.
Naipe vermelho — Ação, liderança e transformação: reúne personagens que movimentam acontecimentos, conduzem povos, executam decisões, enfrentam desafios e transformam a realidade.
Naipe preto — Conhecimento, pensamento e construção: reúne personagens ligados à inteligência, à memória, à linguagem, à criação, à organização e à compreensão dos mundos.
Naipe azul — Os Gênios: composto por dois cavaleiros e seus respectivos cavalos. Representam forças de condução, movimento e orientação. São quatro cartas organizadas em dois conjuntos: Antônio Pires de Campos e Martírio; Fernão Dias Paes Leme e Sumidouro.
Os 12 grupos de Itaecerá
Os 32 protetores também se organizam em 12 grupos, de acordo com suas afinidades, funções e relações dentro da história.
Grupo dos Gênios: Antônio Pires de Campos, Martírio, Fernão Dias Paes Leme e Sumidouro. São os conjuntos que representam a condução das jornadas e o conhecimento dos caminhos.
Grupo dos Exploradores: Anhanguera, Jequitiranaboia e Itanhaém. São personagens ligados à exploração, às forças que interferem no mundo e à relação entre natureza e conhecimento.
Grupo dos Criadores: Sumiê, Lima Barreto e José Bonifácio. Reúnem a criação, a interpretação da história e a formulação de princípios para a sociedade.
Grupo da Família Tupi: Bartira M’Bicy, Antonia Quaresma, Pirijá e João Ramalho. Representam a memória familiar, a esperança, o acolhimento e os mistérios das relações humanas.
Grupo dos Puxadores: Kalunga N’Zambi e Cauibi. São os responsáveis por movimentar e manter vivas as tradições africanas e indígenas.
Grupo dos Fundadores: Rei Kimbangu do Congo. Representa a fundação de uma consciência de igualdade e iluminação entre os mundos.
Grupo dos Reis Fundadores: Claudino Pararanga, Dom Pedro II, Rei Djimon Kidjo e Rei Fela Soyinka. São personagens associados à construção, à autoridade e à formação de estruturas culturais e políticas.
Grupo dos Inconformáveis: Jaguanharó e Ibijau. Representam a ruptura, a inquietação e a percepção que escapa às convenções.
Grupo da Cura: Hércules Florence, Georg Heinrich von Langsdorff e Manoel Preto. Reúnem personagens relacionados à observação, à exploração e à ação prática.
Grupo dos Líderes Religiosos: Rei Amador Vieira, Padre Voador Abarebebé, Príncipe Faure Aguigah e Morubixaba Tibiriçá. Representam diferentes formas de fé, pensamento, liderança e influência espiritual.
O Arquiteto: Victor Brecheret. É o responsável por dar forma aos 32 protetores e estabelecer sua representação nos dois mundos.
O Pivô: Dom Obá II D’África. Ocupa a posição de articulador, mediador e ponto de convergência entre diferentes forças.
As 32 cartas e seus significados
As cartas azuis — Os Gênios
1a. Antônio Pires de Campos — O Condutor da Nação — Éter
É o primeiro dos Gênios. Conduz a nação Tupi anunciada pelo Criador junto à Pedra de Itaecerá. Representa a orientação de um povo e o início de uma jornada coletiva.
1b. Martírio — O Território da Provação — Éter
É o cavalo de Antônio Pires de Campos. Representa o território da provação, os obstáculos e as experiências necessárias para que uma jornada se complete.
14a. Fernão Dias Paes Leme — O Explorador dos Caminhos — Éter
É o segundo Gênio. Conhece caminhos, territórios e recursos. Sua função é descobrir possibilidades, mas compreender que descobrir algo não significa ter o direito de possuí-lo.
14b. Sumidouro — As Profundezas — Éter
É o cavalo de Fernão Dias. Representa os caminhos subterrâneos, as profundezas, os rios escondidos e aquilo que existe além do que os olhos conseguem alcançar.
As cartas pretas — Conhecimento, pensamento e construção
2. Anhanguera — O Dominador — Fogo
Representa a ambição pelo poder absoluto. Sua capacidade de influenciar pensamentos, fabricar certezas e produzir obediência faz dele uma das grandes forças de oposição à liberdade dos demais personagens. É associado simbolicamente à figura do anjo caído.
3. Jequitiranaboia — A Entropia — Fogo
Representa a desordem e a força que desfaz aquilo que foi construído. Sua oposição a Sumiê expressa um princípio fundamental da história: tudo aquilo que o amor constrói pode ser destruído pela entropia.
4. Itanhaém (Itanhenhen) — A Fala — Fogo
Tem cabelos que parecem galhos e olhos translúcidos. Grita na floresta para ouvir o próprio eco. Sua função é transmitir as ordens dos deuses à natureza. Sua amizade com Padre Voador nasce da capacidade do religioso de interpretar as manifestações naturais.
5. Sumiê — O Amor e a Construção — Terra
É uma das figuras centrais da mitologia de NEMLÁ. Representa o amor como força criadora, capaz de desenvolver métodos, produzir conhecimento e construir civilizações. Sua essência é a criação pelo amor, em oposição à desordem e à destruição.
6. Lima Barreto — O Processador da História — Terra
É o dono da história. Funciona como um grande processador de informações, interpretando os dados da sociedade e compreendendo os acontecimentos dos diferentes mundos. Em NEMKÁ, escreveu Policarpo Quaresma como um personagem ingênuo; em NEMLÁ, compreendeu que aquele mesmo personagem poderia ser visto como um administrador visionário, capaz de contribuir para a prosperidade do Brasil.
7. José Bonifácio — O Sábio — Terra
Representa a inteligência organizadora e a capacidade de formular princípios. Sua missão é encontrar caminhos para unir povos diferentes sem apagar suas identidades. É o pensador que procura estabelecer as bases de uma civilização.
8. Bartira M’Bicy — A Matriarca — Terra
É a grande referência da família Tupi. Representa a memória familiar, as alianças e a continuidade das relações entre gerações. Sua força está na capacidade de manter unidos os vínculos que sustentam uma comunidade.
9. Antonia Quaresma — A Esperança — Fogo
Representa tudo aquilo que ainda está por vir. É a página em branco, o futuro que não foi escrito e a possibilidade de que as próximas gerações façam escolhas diferentes das anteriores.
10. Pirijá — O Provedor — Terra
Foi criado sob a proteção e a família de Tibiriçá. Sua armadura tecnológica impede interferências externas em sua mente. Representa o acolhimento e a generosidade: alimenta e recebe aqueles que chegam ao Brasil sem exigir explicações ou fazer perguntas.
11. João Ramalho — O Mistério — Fogo
É uma figura difícil de compreender. Pirijá o alimenta porque Ramalho jamais maltrata alguém, mas sua verdadeira natureza permanece indefinida. Não se sabe inteiramente se é bom ou mau. Sua carta representa aquilo que não pode ser facilmente decifrado.
13. Cauibi (João) — O Puxador das Tradições Indígenas — Terra
É um dos responsáveis por movimentar as tradições indígenas. Atua ao lado de Kalunga N’Zambi, mas representa outra matriz cultural. Sua força está na preservação e na continuidade dos conhecimentos dos povos originários.
20. Jaguanharó (Jaguanharão) — O Rebelde — Ar
Representa a inconformidade e a ruptura. É a força que questiona estruturas estabelecidas e não aceita que a ordem existente seja necessariamente justa. Sua presença anuncia transformações e conflitos.
28. Morubixaba Tibiriçá — O Líder — Terra
É o grande líder Tupi e protetor de Piratininga. Sua liderança é pragmática: assume responsabilidades, toma decisões e executa aquilo que considera necessário para proteger seu povo. Representa a autoridade exercida com responsabilidade e limites éticos.
29. Victor Brecheret — O Arquiteto dos Dois Mundos — Terra
É o responsável por dar forma aos 32 protetores. Seu eté existe tanto em NEMLÁ quanto em NEMKÁ, produzindo duas manifestações de uma mesma obra. Em NEMKÁ, o monumento representa a expansão territorial violenta; em NEMLÁ, os personagens aparecem como reis e protetores que vieram compartilhar conhecimentos. Brecheret é, assim, o arquiteto visual das duas histórias.
As cartas vermelhas — Ação, liderança e transformação
12. Kalunga N’Zambi (Benguela) — O Puxador das Tradições Africanas — Água
É uma figura angolana, alegre e ligada às cores e à dança. Representa a força que movimenta as tradições africanas e faz com que elas permaneçam vivas. É um puxador: aquele que aplica a força necessária para que as coisas aconteçam.
15. Rei Kimbangu do Congo — O Equalizador — Água
É uma figura iluminada nos dois mundos, NEMLÁ e NEMKÁ. Assim como Jesus, sua iluminação permite que leve sabedoria cristã e amor de um mundo ao outro, fazendo com que ambos se beneficiem de suas experiências. Representa a igualdade e a possibilidade de superar as diferenças entre realidades.
16. Claudino Pararanga — O Mestre Construtor — Ar
É o mestre da construção e da geometria analítica. Domina os princípios matemáticos necessários para transformar uma concepção em realidade. É quem executa a obra de Brecheret, dando concretude à sua visão.
17. Dom Pedro II — O Imperador — Ar
Representa a autoridade imperial, a responsabilidade de governar e o poder de organizar uma sociedade. Sua carta está associada à figura do soberano e às decisões que podem influenciar o destino de um país.
18. Rei Djimon Kidjo — O Rei Fon — Água
Rei ligado à tradição Fon, representa uma das matrizes culturais e religiosas africanas que contribuíram para a formação de NEMLÁ. É um dos disseminadores do Candomblé nesse mundo.
19. Rei Fela Soyinka — O Rei Yorubá — Água
Representa a tradição Yorubá e sua contribuição para a formação religiosa e cultural de NEMLÁ. Atua em afinidade com Rei Djimon Kidjo, mas preserva a identidade própria de sua matriz cultural.
21. Ibijau — O Tolo — Ar
Vive nos dois mundos e está sempre distraído, olhando para aquilo que acontece do outro lado. Conhece tudo e, ao mesmo tempo, parece não saber nada. Sua carta representa a curiosidade, a liberdade de percepção e a capacidade de atravessar fronteiras sem compreender inteiramente o que está vendo.
22. Hércules Florence — O Cientista — Ar
É o observador que registra aquilo que está desaparecendo. Sua capacidade de transformar observações em conhecimento transmissível permite que descobertas e experiências não se percam com o tempo. Representa a ciência como memória organizada do mundo.
23. Georg Heinrich von Langsdorff — O Viajante — Ar
É o grande explorador. Representa a curiosidade, a descoberta e a disposição de atravessar territórios desconhecidos para ampliar o conhecimento sobre o mundo.
24. Manoel Preto — O Homem de Ação — Ar
É o general pragmático, responsável pela logística, pela mobilização e pela execução de tarefas. Representa a capacidade de transformar planos em movimentos concretos.
25. Rei Amador Vieira — A Vitória — Água
Sua figura lembra a Vitória Alada de Samotrácia. Representa a conquista, a afirmação e a força que permite superar obstáculos. Sua presença simboliza o triunfo de uma causa ou de uma jornada.
26. Padre Voador Abarebebé — O Aprendiz da Fé — Ar
É um jovem religioso ainda inexperiente. Sua intenção é fazer o bem, mas nem sempre compreende plenamente as forças com as quais lida. Por isso, pode provocar problemas ao tentar enfrentar aquilo que considera mau sem conhecer todas as suas consequências.
27. Príncipe Faure Aguigah — O Filósofo — Ar
É um pensador independente, um personagem que puxa pela reflexão e pelo questionamento. Não se deixa conduzir facilmente por outros. Sua força está na capacidade de pensar antes de agir e de propor caminhos sem necessariamente assumir a liderança prática.
30. Dom Obá II D’África — O Pivô
É o ponto de articulação entre diferentes forças e conhecimentos. Representa a mediação, a percepção e a capacidade de conectar aquilo que, à primeira vista, parece separado. Sua posição é central porque permite que diferentes personagens e interesses encontrem um ponto de convergência.
Os 16 pares de antagonistas
Cada carta possui um único antagonista. São 16 pares exclusivos, sem repetição de personagens. As oposições não significam necessariamente que um personagem seja bom e o outro mau. Elas representam forças diferentes que se confrontam, se desafiam ou expressam princípios incompatíveis.
Sumiê × Jequitiranaboia: amor e construção contra entropia e desordem. O que o amor constrói, a entropia destrói.
Príncipe Faure Aguigah × Tibiriçá: Faure puxa, pensa, filosofa e questiona; Tibiriçá empurra, lidera, decide e executa.
Claudino Pararanga × Lima Barreto: Pararanga tem o código nas mãos; Lima é o processador que faz o código rodar.
Anhanguera × Pirijá: Anhanguera tenta interferir nas mentes; a armadura tecnológica de Pirijá impede essa influência.
Antonia Quaresma × Manoel Preto: Antonia representa o futuro em aberto; Manoel Preto representa a ação prática e a mobilização.
Dom Pedro II × Jaguanharó: o imperador representa a ordem estabelecida; o rebelde representa a ruptura.
Kalunga N’Zambi × Cauibi: dois puxadores de tradições; Kalunga movimenta a herança africana e Cauibi, a indígena.
Rei Djimon Kidjo × Rei Fela Soyinka: dois reis ligados à difusão de tradições religiosas africanas, representando matrizes diferentes, Fon e Yorubá.
Antônio Pires de Campos × Martírio: Antônio conduz a nação anunciada pelo Criador; Martírio representa o território da provação.
Fernão Dias Paes Leme × Sumidouro: Fernão conhece os caminhos e recursos da superfície; Sumidouro representa as profundezas e passagens subterrâneas.
Bartira M’Bicy × João Ramalho: Bartira representa a memória familiar e as alianças; Ramalho permanece um mistério difícil de compreender.
Hércules Florence × Langsdorff: Florence registra e preserva o que desaparece; Langsdorff viaja e descobre o que ainda não conhece.
Ibijau × Itanhaém: Ibijau vive distraído entre os dois mundos, olhando para o que está além; Itanhaém escuta os ecos da natureza e transmite a fala dos deuses. Um se perde entre realidades; o outro procura dar voz a elas.
Victor Brecheret × José Bonifácio: Brecheret dá forma à visão dos 32 protetores; José Bonifácio formula os princípios que deveriam orientar a união dos povos. Um constrói a representação; o outro estabelece o sentido que ela deve carregar.
Rei Kimbangu do Congo × Dom Obá II D’África: Kimbangu representa a iluminação e a igualdade entre os mundos; Dom Obá é o pivô que articula forças e conhecimentos.
Rei Amador Vieira × Padre Voador Abarebebé: Amador representa a vitória e a afirmação; Abarebebé representa a fé ainda inexperiente, que pode provocar problemas ao tentar fazer o bem.
A leitura dos destinos
As Cartas de Itaecerá foram concebidas para que suas combinações contem histórias. Uma carta isolada apresenta uma força ou uma característica; duas cartas em oposição revelam um conflito; um conjunto de cartas pode representar uma situação, uma escolha, uma transformação ou um caminho que ainda está por acontecer.
Uma leitura não precisa indicar um destino imutável. Ao contrário, pode mostrar quais forças estão atuando, quais obstáculos precisam ser enfrentados, quais alianças podem ser construídas e quais consequências podem surgir de determinada decisão. O futuro de NEMLÁ não está escrito de maneira definitiva: ele se forma pela interação entre os personagens e pelas escolhas que fazem.
O valor do baralho está justamente nessa possibilidade. As cartas não contam apenas a história dos 32 protetores da Pedra de Itaecerá. Elas oferecem uma maneira de compreender como uma civilização se organiza, como o conhecimento se transforma em ação, como o amor constrói, como a desordem destrói e como diferentes povos podem encontrar caminhos para conviver sem perder suas identidades.
A Pedra de Itaecerá guarda a marca do Criador. As cartas revelam as forças que se movimentam a partir dela. E cada nova combinação abre uma possibilidade de história, porque, em NEMLÁ, compreender o destino é também compreender as escolhas que podem transformá-lo.



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